Um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de provincia
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como as flores





* Imagem via sine-qua-non

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| Por Prensada | quinta-feira, 28 de maio de 2009 | 09:09.


ela não quer que eu fale dela
ela não para no papel
ela não suporta profeta

ela põe abaixo tudo que é sólido
ela não mente
ela se amotina

ela só ela me justifica
ela é minha razão
ela não me pertence

ela é estranha e teimosa
eu a escondo
como uma vergonha

ela é fugaz
ninguém pode partilhá-la
ninguém pode guardá-la para si

eu nada guardo
eu partilho tudo com ela
ela parte para outra

um outro a esconderá
na sua fuga vitoriosa
através da mais longa noite.



* Hans Magnus Enzensberger, A alegria

* Foto via overflowing

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| Por Prensada | quinta-feira, 29 de janeiro de 2009 | 22:47.



Passam no teu olhar nobres cortejos,
frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos.

Mares onde não cabem teus desejos;
passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres !
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza !

E ao sentir-te tão grande , ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa !



* Florbela Espanca , O Teu Olhar
( outubro , 1930
)

Poema retirado da
coletânea caprichadíssima da Ed. Martins Fontes.

* detalhe de azulejos portuguêses, Lisboa

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| Por Prensada | domingo, 21 de setembro de 2008 | 22:37.