
Um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de provincia
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como as flores
* Imagem via sine-qua-non
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ela não quer que eu fale dela
ela não para no papel
ela não suporta profeta
ela põe abaixo tudo que é sólido
ela não mente
ela se amotina
ela só ela me justifica
ela é minha razão
ela não me pertence
ela é estranha e teimosa
eu a escondo
como uma vergonha
ela é fugaz
ninguém pode partilhá-la
ninguém pode guardá-la para si
eu nada guardo
eu partilho tudo com ela
ela parte para outra
um outro a esconderá
na sua fuga vitoriosa
através da mais longa noite.
* Hans Magnus Enzensberger, A alegria
* Foto via overflowing
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Passam no teu olhar nobres cortejos,
frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos.
Mares onde não cabem teus desejos;
passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;
Passam lendas e sonhos e milagres !
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza !
E ao sentir-te tão grande , ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa !
* Florbela Espanca , O Teu Olhar
( outubro , 1930 )
Poema retirado da
coletânea caprichadíssima da Ed. Martins Fontes.
* detalhe de azulejos portuguêses, Lisboa
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